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Ecologia & Piracema

Conheça tudo sobre a Piracema e saiba porque esse período é importante para a preservação dos peixes do Pantanal.

O QUE É A PIRACEMA?
Na língua Tupi, Piracema é a palavra que quer dizer “saída dos peixes para a desova”. Os índios já observavam que alguns peixes saíam dos lagos e baías em movimentos migratórios que culminavam com a reprodução, e, mesmo nos dias de hoje, essa ainda é a palavra que melhor traduz toda a complexa seqüência do processo reprodutivo dos peixes em condições ambientais propícias.
Antes, muito antes da reprodução propriamente dita acontecer, os animais interpretam os sinais ambientais de que a estação favorável está para chegar. Dias mais quentes, chuvas mais freqüentes, água mais oxigenada, são alguns desses sinais. Machos e fêmeas dispersos em rios, lagos, baías e áreas de alimentação saem para a calha dos rios, deslocam-se milhares de quilômetros formando cardumes que se dirigem às áreas de desova, onde estarão próximos, maduros, prontos para o acasalamento. A fecundação dos peixes migradores é externa, e a elevada concentração de machos e fêmeos aumenta as chances de fertilização no ambiente aquático.
Os milhões de ovos e larvas, como nuvens suspensas na coluna d'água, serão vítimas de predadores, da escassez de alimentos e de muitas outras condições adversas. Poucos chegarão à fase adulta. A dispersão dos ovos, embriões e larvas para as margens dos rios, feita pelas correntes, concorre para que encontrem maior quantidade de alimento e proteção, reduzindo essa perda.

POR QUE HÁ RESTRIÇÕES À PESCA DURANTE A PIRACEMA?
Durante a piracema, o apelo para conservação da espécie é tão intenso que os peixes se descuidam de suas estratégias de proteção. Tornam-se presa fácil. A viagem de centenas de quilômetros os deixa extenuados, e muitos pescadores aproveitam-se dessa fragilidade para capturá-los facilmente, e em grandes quantidades. Agindo desse modo, interferem em todo o processo de perpetuação da espécie e renovação dos estoques, que será sentido na diminuição do tamanho dos peixes e na quantidade disponível para a pesca nos anos subseqüentes. Por isso é tão importante a proteção dos peixes na época da piracema.
O defeso da Piracema é determinado pela Lei n° 7.679, de 23 de novembro de 1988, e estabelecido anualmente pelo IBAMA, com a colaboração de órgãos, instituições e associações envolvidas com à pesca em cada bacia hidrográfica.

Conheça agora um dos mais fascinantes milagres da Natureza no Pantanal que acontece todo ano.

 O Brasil coleciona as maiores bacias hidrográficas do planeta, milhares de rios que formam o mundo das águas, ainda não totalmente conhecido. A estimativa é de que existam cinco mil espécies de peixes de água doce, mas apenas cerca de 1.700 foram descritas pelos pesquisadores.
 Para os peixes de piracema, o verão é a época da luta pela vida, a hora de nadar contra a correnteza, nem que para isso seja preciso sair do mundo das águas em saltos espetaculares. Por muito tempo, as corredeiras e cachoeiras foram as únicas dificuldades desses peixes aventureiros, que nadavam centenas de quilômetros. 
O dourado, considerado o rei do rio, teve seu ameaçado. Por ser uma das espécies mais exigentes para a reprodução, precisa migrar no mínimo 400 quilômetros para desovar. Em muitos rios do Brasil, esse peixe desapareceu. 
O esforço na viagem de piracema é necessário para que o peixe queime gordura, estimulando a hipófise a produzir os hormônios da reprodução. Dourados, corimbatas e piaus se encardumam e sobem os rios em direção às cabeceiras entre agosto e setembro.
Piaus, corimbatás e, atrás deles, os dourados. Centenas de peixes nadando contra a correnteza, à espera do momento da desova. Além dos peixes, chama a atenção a variedade de plantas. 
Nos canais mais rasos, com até cinco metros de profundidade, o mergulho se transforma num passeio por um jardim sub-aquático. Mais de mil espécies de plantas aquáticas se desenvolvem aqui. Os raios solares, ao penetrarem a água cristalina, provocam a fotossíntese.
As plantas dão à água um alto teor de oxigênio. Esse fato aliado à correnteza justifica a presença dos peixes de piracema. Nesse canal, está acontecendo a desova. 
Até quatro horas antes da desova, começa a dança nupcial. Machos e fêmeas nadam rapidamente em círculos. Os peixes se tocam. Parecem aflitos. Numa dança, a fêmea lança sucessivos jatos de óvulos e, imediatamente, os machos derramam o sêmen. A fecundação é externa, na água. 
Uma fêmea de dez quilos desova em média 1,5 milhão de óvulos. Cada óvulo fecundado se transforma em ovo carregado pela correnteza. O destino de cada ovo é incerto, mas neles a vida já é uma certeza. Com um microscópio, acompanhamos todas as fases do desenvolvimento de um novo peixe, ao longo de 16 horas. Fecundado, o ovo se hidrata e aumenta de tamanho três vezes. 
A natureza é mágica. A vida parece surgir do nada. As células se multiplicam. Aos poucos, a vida ganha forma. Uma minúscula larva começa a pulsar e a vibrar antes mesmo de nascer. Luta para escapar da morte. A cápsula onde se desenvolveu agora é uma prisão. Rompê-la significa uma chance de vida. 
Só depois de uma hora de muito esforço o ovo é rompido. Mas este é apenas o primeiro de muitos desafios. Os alevinos nascem com um saco vitelino, uma bolsa de nutrientes, que garante alimento por três dias. Só as larvas que alcançarem as águas calmas de lagoas e baías, onde existem microorganismos que servem de alimento, têm chance de sobreviver. 
Os alevinos vão ter ainda que escapar de predadores. Só vão se tornar adultos os mais fortes e ágeis o suficiente para enfrentar as rigorosas leis da mãe natureza. O mundo das águas também é selvagem. 
A reprodução dos peixes de piracema talvez seja uma das maiores incertezas do mundo das águas. De uma desova de um 1,5 milhão óvulos, apenas cerca de 30 peixes se tornam adultos.

Diante do esforço de migração, um resultado tão pequeno pode parecer uma injustiça. Mas a natureza é sábia - quando um peixe começa a migração, não tem certeza de que vai chegar ao final. Sente um impulso e segue. A larva quando sai do ovo não sabe se vai sobreviver. O pescador quando lança a isca não tem certeza de fisgar.

O Pantanal é pura vida. E viver é enfrentar os desafios e ao mesmo tempo acreditar na perfeição das incertezas da vida.



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